113 E m p r e s a s M i l i t a r e s Resumo Os europeus t?m cada vez mais fins e tarefas a que afectar os seus recursos, e a competi??o sobre os mesmos e a menor percep??o de amea- ?as aumentaram a escassez sentida pelos mili- tares, que passaram a ter de fazer miss?es de gest?o de crises e apoio humanit?rio (Miss?es de Petersberg), quando a defesa do estado contra amea?as externas ? a voca??o natural das FA, meio pol?mico e economicamente ineficiente de efectuar aquelas miss?es. A efici?ncia eco- n?mica ser? mais bem servida por contratos com privados para miss?es com baixa inten- sidade de viol?ncia, mas pondo em causa o dogma weberiano de monop?lio da viol?ncia leg?tima do estado. Este dogma j? foi superado em fun??es de seguran?a interna, com uma adequada e s?lida regula??o, com ganhos con- sensuais; pode assim inspirar a mudan?a no n?vel externo, que passa por incentivar a cria??o e sustentabilidade de empresas de servi?os de seguran?a e defesa, substituindo o modelo in- certo e desregulado de recurso ad-hoc a merce- n?rios ou empresas de fachada. Existe um mer- cado de servi?os de seguran?a e defesa, com oferta e procura, ainda que n?o seja claramente reconhecido, e ele pode servir para melhorar a afecta??o de recursos na Europa, desde que seja bem regulado e funcione onde tem vanta- gem sobre as FA. Abstract The tasks to which the Europeans are assigning their resources are growing, and the competition on them and a lesser perception of threats have increased the scarcity felt by the military, who are now asked to do crisis management and humanitarian relief tasks (Petersberg Missions), unlike state defense against external threats, the primary concern of the military, a contentious and economically inefficient resource to employ in many of these tasks. Economic efficiency may be better served by contracting with the private sector tasks with low intensity of violence, albeit at the cost of the weberian dogma of the state monopoly of legitimate violence. This dogma has been superseded in internal security tasks, with an adequate and solid regulation, whose gains are consensual; it can thus inspire a change on the external level, by incentivating the creation and sustainability of private security and military firms, replacing mercenaries and false firms as the supply in the market. The market of security and defense exists, it has supply and demand, although it is not widely acknowledged, and it can help improve the allocative efficiency in Europe, as long as it is well regulated and works where it has advantage over the military. Jorge Silva Paulo Capit?o-de-Fragata. Professor de Economia da Empresa Ver?o 2005 N.? 111 - 3.? S?rie pp. 113-154 115 Introdu??o S?o cada vez mais escassos os recursos financeiros e as pessoas necess?rios para realizar opera??es militares, o que exige cada vez maior efici?ncia na sua afecta??o. As sociedades modernas t?m cada vez mais fins, objectivos e tarefas a que afectar os seus recursos, gerando uma intensa competi??o sobre os mesmos, que s?o sempre finitos e, por consequ?ncia, escassos. N?o ? nova a competi??o por recursos escassos, mesmo nas fun??es b?sicas do estado ? ? velho o ?dilema da manteiga e dos canh?es?. Novas ser?o a intensidade da press?o concorrencial sobre os recursos a afectar ?s For?as Armadas (FA), pela falta de amea?as percebidas pela popula??o na Europa, e sobretudo as solu??es tecnol?gicas e jur?dicas para necessidades antigas, em geral cada vez mais caras. ? neste enquadramento de fundo que tem de ser vista a quest?o actual da privati- za??o da viol?ncia leg?tima, cristalizada no recurso a empresas militares e de seguran?a, pelos governos, para desempenhar fun??es que ? tradicional associar apenas ao estado. De tal modo ? assim, que o seu antecessor, o mercen?rio, embora tendo uma tradi??o mais longa do que as FA nacionais, tem hoje uma conota??o negativa, devido a factos com poucas d?cadas. Neste artigo analisa-se esta quest?o, recorrendo em larga medida ao racioc?nio econ?mico, e numa perspectiva positiva. Conclui-se com a proposta de considerar o emprego destas empresas, em vez das FA nacionais, em miss?es de baixa intensidade de viol?ncia ? de gest?o de crises e de manuten??o de paz ?, sujeitas a uma regula??o realista, mas que ser? desej?vel criar. As For?as Armadas: uma solu??o racional e econ?mica para a defesa Existe um espa?o leg?timo para as empresas militares no mundo actual. Para o provar, h? que entender a natureza das FA nacionais, mat?ria que se explora a se- guir. Empresas Militares 116 Jorge Silva Paulo Prefer?ncia por solu??es nacionais1 A defesa tem as propriedades de bem2 p?blico3 (de n?o-exclus?o4 e de n?o-rivali- dade ou indivisibilidade5), o que justifica a provis?o pelo estado, devido ao problema da boleia6, ou borlismo. Dado que s?o os cidad?os de um estado que procuram e usu- fruem da defesa ? justo que sejam eles a suport?-la, o que fazem pelos impostos e pela conscri??o. Entretanto, a defesa pode ser produzida por opera??es militares, as quais s?o espe- c?ficas, complexas e envolvem altos riscos; basta isso para tornar muito oneroso e di- f?cil, se for vi?vel, formar bons contratos para o efeito com privados, ou estados estran- geiros, todos com interesses e prefer?ncias pr?prios, pois: ? Est? em causa a sorte e o futuro duma sociedade, valores quase absolutos. A remunera??o pedida por quem defenda outros medir-se-? em territ?rio, incluindo 1 Segue de perto Paulo (2002) pp. 33-52. 2 N?o necessariamente por ser tang?vel, mas por ser procurado e apreciado pelas pessoas. Por analogia, define-se mal p?blico com as mesmas propriedades do bem p?blico, s? que ? activamente rejeitado (isto ?, merece procura negativa) pelas pessoas; cf. Samuelson, Nordhaus (1992) p. 377. Contudo, dada a natureza intang?vel, a defesa ? um servi?o e n?o um bem. 3 Os bens privados gozam das propriedades opostas: s?o div?siveis e ? poss?vel excluir do consumo indi- vidual quem n?o o pague. Note-se que n?o ? por servir a muitas pessoas que algo se torna em bem p?blico: os bens p?blicos distinguem-se dos privados pela natureza objectiva das caracter?sticas dos bens e n?o pela utilidade que d?o ?s pessoas; assim, a evolu??o tecnol?gica pode fazer com que bens p?blicos deixem de o ser; cf. Barbosa (1997) pp. 11-12. Por exemplo, o p?o serve ? grande maioria das pessoas, n?o ? bem p?blico puro nem impuro, mas privado: ? divis?vel, o consumo por uma pessoa exclui o de outra e ? poss?vel pagar o consumo individual. 4 N?o ? comport?vel excluir do seu consumo quem n?o pague directamente por eles; por isso, a defesa ? (em geral) suportada por impostos. Cf. Barbosa (1997) p. 9. 5 Uma vez dispon?veis para consumo por uma pessoa, podem ser consumidos por mais sem nenhuma perder por isso; isto ?, ? zero o custo marginal de servir mais um consumidor, e que se mant?m at? haver congestionamento; cf. Barbosa (1997) pp. 8-10. Este crit?rio ? muito restritivo, o que lhe retira utilidade pr?tica; por isso, mesmo em an?lises te?ricas, tende a aliviar-se definindo-se bens p?blicos puros e bens p?blicos impuros ? estes servem uma grande parte do publicum, mas n?o todo. A defesa ser? um dos bens p?blicos menos impuros que h?. 6 O problema da boleia consiste em usufruir dos benef?cios de um produto sem suportar os custos correspondentes. Quem consome sem pagar tem um almo?o gr?tis; mas, dada a escassez de recursos, h? sempre quem paga o que ? gr?tis para outros. Consumir ? espera que outr?m pague ser? imoral e n?o dever? ocorrer; mas ocorre e ? importante para a manuten??o e a coes?o de uma comunidade resolver os problemas de boleia que nela ocorrem. Faltam incentivos ao sector privado para produzir bens p?blicos como a defesa, pois o borlismo torna dif?cil obter receitas (da venda aos respectivos consumidores) que cubram o custo de produ??o, e em que os custos indirectos s?o elevados e muito r?gidos ? baixa. A produ??o privada de bens p?blicos para oferta no mercado faz-se em quantidade sub?ptima, tornando o mercado uma op??o economicamente ineficiente; h? uma falha do mercado. Ver Barbosa (1997) p. 28. 117 Empresas Militares riquezas naturais, ou perda de autonomia pol?tica7, pois sabe que quem procura est? disposto a pagar muito. ? Depois, as opera??es militares exigem a disponibilidade da pr?pria vida. N?o h? muitas pessoas com essa disponibilidade, pois o risco de morrer reduz a utili- dade esperada por quem defenda outros por remunera??o terrena, e que a pode tornar in?til; j? Machiavelli alertava para o prov?vel fraco empenho dos guerreiros profissionais em combate8: ?As [tropas] mercen?rias e auxiliares9 s?o in?teis e perigosas; e o pr?ncipe cujo governo descanse em soldados mercen?rios n?o estar? nunca seguro nem tran- quilo, porque est?o desunidos, porque s?o ambiciosos, desleais, valentes entre os amigos, mas cobardes quando se encontram frente aos inimigos; por que n?o t?m disciplina [...]; [...] n?o t?m outro amor nem outro motivo que os leve ? batalha que o pagamento do pr?ncipe, o qual, pelo seu lado, n?o ? suficiente para que desejem morrer por ele.? E mais ? frente10: ?Estas tropas [dos aliados] podem ser ?teis e boas para os seus senhores, mas para quem as chama s?o quase sempre funestas; posto que, se perdem, ficam derrotados, e se ganham, ficam seus prisioneiros. [...] Conclui-se daqui que todo aquele que n?o queira vencer n?o tem mais do que servir-se dessas tropas, muit?ssimo mais perigosas do que as mercen?rias, porque est?o perfeitamente unidas e obedecem cegamente aos seus chefes [...]. Por isso, todo o pr?ncipe pru- dente [...] preferiu perder com as suas [tropas] a vencer com as outras [aliadas] considerando que n?o ? vit?ria verdadeira a que se obt?m com armas alheias.? E, por fim11: ?Porque n?o h? nada melhor para conservar ? se se quer conservar ? uma cidade acostumada a viver livre do que fazer com que seja governada pelos seus pr?prios cidad?os.? 7 N?o tem que se tratar de perda de independ?ncia ou de soberania, cristalizada na perda dos s?mbolos formais da na??o (como a bandeira ou o hino nacional); basta que os dirigentes tenham que consultar outra entidade externa antes de tomarem as suas decis?es. 8 Cf. Machiavelli (1996) p. 77 (tradu??o livre). 9 Machiavelli chama auxiliares ?s tropas dos aliados. 10 Cf. Machiavelli (1996) pp. 82-83 (tradu??o livre). 11 Cf. Machiavelli (1996) p. 54 (tradu??o livre). 118 Em contrapartida, a decis?o de arriscar a pr?pria vida pode custar menos caso se baseie no patriotismo ou na f? religiosa, cuja ?remunera??o? n?o ? terrena, e pode ocorrer s? ap?s a morte12. A contrata??o da defesa a aliados de circunst?ncia pode ainda trazer custos no longo prazo, pois quem preste servi?os a um estado numa ocasi?o pode vir a prest?-los a um vizinho noutra, e pode passar-lhe informa??o vital que colocar? o primeiro em risco; se for poss?vel em tempo ?til, uma pol?tica de defesa e de redu??o do risco pode sair muito mais cara do que a auto-sufici?ncia. Enfim, o modelo da na??o em armas apela ao povo para a defesa do que ? seu, e faz sentido ? ainda que seja discut?vel ? defini-lo como um sacrif?cio (um custo distribu?do por todos), a favor do bem-comum. De resto, custa mais (em sentido lato) remunerar terceiros pela produ??o da sua defesa do que ter FA nacionais (apenas profissionais ou recorrendo ? conscri??o); por isso, a maioria dos estados entendem que a provis?o da defesa nacional, p?blica e por nacionais, ? mais econ?mica13. Produ??o p?blica verticalmente integrada14 A integra??o vertical ? isto ?, a unidade de produ??o e direc??o ? na realiza??o de opera??es militares, por oposi??o ? aquisi??o descentralizada de servi?os indi- viduais no mercado, ? uma quest?o afim da anterior e a considerar neste ?mbito15. Muitas organiza??es adquirem no mercado de produtos acabados (off-the-shelf) ou caso-a-caso por contratualiza??o (outsourcing16 ou contracting-out17) os recursos de que necessitam para as suas actividades produtivas, pois os custos de transac??o18 e os custos 12 Note-se, contudo, que est? impl?cito um c?lculo racional, de custos e benef?cios individuais. 13 Embora poucos estados tenham capacidade suficiente para opor-se a amea?as e reduzirem riscos que con- cluam existirem; a grande maioria suprir? as lacunas por contratos com entidades privadas ou por meio de alian?as. 14 Segue de perto Paulo (2002) pp. 33-52. 15 Ver a descri??o do modelo hipot?tico de obten??o descentralizada de defesa, proposto por Abba Lerner em 1942 em Hitch McKean (1960) pp. 221-224. Embora indirectamente, a presente subsec??o analisa as debilidades do referido modelo descentralizado, ali?s nunca colocado em pr?tica. 16 Aquisi??o de servi?os no exterior da organiza??o. 17 Contrata??o com entidades privadas de servi?os antes prestados pelo estado. 18 Custos de coloca??o ou obten??o dos produtos no mercado: ?search and information costs, bargaining and decision costs, policing and enforcement costs?, cf.Coase (1960) p. 6. Na defesa, os custos de transac??o Jorge Silva Paulo 119 de ag?ncia19 devidos aos contratos a fazer com os fornecedores superariam os custos da produ??o interna20: ?[...] although production could be carried out in a completely decentralized way by means of contracts between individuals, the fact that it costs something to enter into these transactions means that [organizations] will emerge to organize what would otherwise be market transactions whenever their costs were less than the costs of carrying out the transactions through the market. The limit to the size of the [organization] is set where its costs of organizing a transaction become equal to the cost of carrying it out through the market.? 21 A efici?ncia na afecta??o de recursos e o ganho na contratualiza??o exigem dos contratos: ? Muit?ssimo pormenor, explicitando clara e inequivocamente resultados a obter, controlos e limites a observar, pr?mios e penalidades. ? Complexidade, porque est? em causa a aplica??o da viol?ncia sobre pessoas. ? E falta de uniformidade, pois t?m de ser espec?ficos para cada opera??o. Ou seja, bons contratos ter?o de ser completos, claros e ? medida do cliente ? e, no caso da defesa, muit?ssimo dif?ceis de conceber previamente; por isso, as alian?as fazem-se com estados com valores civilizacionais e culturais afins, e que assegurem uma rela??o boa e duradoura. Al?m disso, a negocia??o desses contratos envolve discuss?es entre as partes, cuja dura??o e dificuldade ? mais do que proporcional ? complexidade da mat?ria; isso faz com que os custos de transac??o excedam o somat?rio dos custos individuais dos contratos22 (as organiza??es que os t?m de negociar e gerir s?o mais complexas e mais dif?ceis de coordenar, logo mais caras). s?o os custos da procura e da remunera??o dos fornecedores, e os custos de especifica??o e negocia??o dos contratos. Para uma caracteriza??o mais detalhada, ver Williamson (1985). 19 Custos de acompanhamento, inspec??o e solu??o de conflitos sobre os contratos. 20 Na an?lise econ?mica, estas compara??es fazem-se sobre extensos per?odos, como o longo prazo e ciclos- -de-vida, e inclui todos os custos e benef?cios relevantes, e n?o s? aqueles inseridos numa dota??o or?a- mental. 21 Cf. Coase (1960) p. 6. 22 Devido ? Lei dos Grandes N?meros; cf. Barbosa (1997) pp. 31-36 e pp. 39-41. Empresas Militares 120 Tamb?m os custos de ag?ncia crescem mais depressa do que o n?mero de con- tratos, com a agravante do risco moral (moral hazard23); de facto, mesmo que a riva- lidade entre fornecedores limite os pre?os, os custos de ag?ncia podem n?o baixar, devido ao risco moral, sob a forma de oportunismo p?s-contratual24. Para evitar que o fornecedor abuse da sua vantagem ? necess?rio fiscalizar apertadamente as suas actividades, com elevados custos; no fim, a fiscaliza??o pouco se distingue da reali- za??o das opera??es pelo cliente-contratante, que ? o que este visa evitar. Para baixar os custos de transac??o e de ag?ncia h? que reduzir o n?mero de con- tratos: s? um contrato com um fornecedor (prime contractor), que aceite ser respon- s?vel por subcontratar e integrar os v?rios servi?os especializados e os bens inter- m?dios. Isto ?, o povo delega nos ?rg?os do seu estado (de direito democr?tico) a responsabilidade de organizar e dirigir as suas FA, como entidade unit?ria nacional, para que elas o defendam de amea?as externas (mesmo que planeadas e concreti- zadas internamente, ter?o, no m?nimo, um forte apoio externo25), atrav?s de opera??es militares; raramente um povo confia a sua defesa a estrangeiros, ou descentralizada- mente. Al?m disso, quando, como no caso da defesa, existem elevados riscos e incerteza, activos humanos espec?ficos e valores superiores, a unidade e o poder de direc??o26 s?o vitais. A maior qualifica??o das pessoas pode permitir realizar actividades mais complexas e at? com alguma autonomia, mas ? sempre essencial existir quem, desde um centro de informa??es e tomando em conta os impactos das actividades, actualize os objectivos, reduza a incerteza de quem executa e assuma a responsabilidade pelos resultados, perante o n?vel superior de decis?o e, em ?ltima an?lise, perante o povo, de quem deriva a legi- timidade para a actua??o em causa27: 23 ?O problema do moral hazard aparece quando existe informa??o assim?trica e [...] diz respeito ex-post ? celebra??o do contrato, em que uma das partes tenta esconder ou manipular uma das caracter?sticas do bem (ou servi?o) para seu benef?cio ou exerce um comportamento que pode ser prejudicial para a outra parte. Por outras palavras, o problema do moral hazard surge quando as probabilidades dos eventos podem ser influenciadas pelas ac??es do agente?; cf. Mateus, Mateus (2002) p. 655. 24 Assumir uma postura cobarde, como sugeria Machiavelli, com o efeito de aumentar a dura??o do con- trato. 25 Uma localiza??o externa ou ? dist?ncia ? essencial para que quem amea?a possa efectuar um planeamento menos sujeito a observa??o e potencial esvaziamento pelos alvos. 26 ?O poder de direc??o consiste na faculdade de o superior dar ordens e instru??es, em mat?ria de servi?o, ao subalterno?; cf. Amaral (2000) p. 641; e acrescenta que este poder ? ?inerente ao desempenho das fun??es de chefia? (p. 642). 27 Cf. Drucker (1997) p. 4. Jorge Silva Paulo 121 ?Precisely because there will be so much ambiguity, so much flexibility, so many variations, far more clarity will be needed in respect to mission, values and strategy; in balancing long-range and short-range goals; in defining results. Above all, absolute clarity will be needed as to who makes ultimate decisions and who is in command in a crisis?. As grandes excep??es Mas importa reconhecer que h? duas grandes excep??es: as alian?as militares, como a NATO ou com um estado estrangeiro (islandiiza??o); e privados28. Estes casos tra- duzem a situa??o de provis?o p?blica e (para o estado benefici?rio) produ??o privada. Pode achar-se chocante admitir sequer o tema29, mas basta pensar em estados cujas FA se desagregaram numa guerra civil, para quebrar o dogma e admitir que merce- n?rios ou empresas militares poder?o ser a ?nica forma de pacificar regi?es nas quais governos estrangeiros n?o queiram intervir. A mudan?a Depois de a guerra ter come?ado pelo combate corpo a corpo, no qual era essencial a bravura e a capacidade f?sicas, a necessidade de reunir e articular muitos combatentes criou necessidades de coordena??o e comando, e exigiu a divis?o do trabalho, a fim de aproveitar a vantagem comparativa30 dos actores. Com esta, e a necessidade de aprofundar t?cnicas e aumentar a efic?cia e a efici?ncia das actividades b?licas, sur- giram a especializa??o e a profissionaliza??o31. A profissionaliza??o e a correspon- dente remunera??o das actividades b?licas atingem um ponto alto na Europa do s?culo XVIII, marcada pelo conceito de soberania dos estados, governados por monarcas absolu- tistas32: 28 ? ?privado? para um estado, pois um estrangeiro, neste contexto, tamb?m n?o visa os seus fins comuns e gerais. 29 Nesse sentido, ver Silverstein (1997); Wrigley 1999); Markusen (2001); Leander (2002a); ICIJ (2002a); ICIJ (2002b). 30 Para a caracteriza??o deste conceito, ver Krugman, Obstfeld (1997) pp. 13-35. 31 Ver Rapoport (1974) p. 211. 32 Cf. Rapoport (1974) p. 217. Empresas Militares 122 ?To the monarchs, war was a normal, legal instrument in pursuit of specified, limited goals. To the generals it was the practice of a profession. Civilian populations were little involved (patriotism had not yet been invented).? O modelo dos mercen?rios33, ou profissionais free lancer da guerra, tem custos, pecuni?rios e n?o s?, significativos, dado que o seu treino e manuten??o eram caros, e a colecta de impostos era reduzida. Mas era a norma at? ao s?culo XIX34, e muitos es- tados os usaram35: ?England, France, Germany, Switzerland, Ireland, Canada, the United States, Japan, China, Mexico, Chile, Greece, and a host of others all had their emerging national destinies shaped by mercenary soldiers.? Em especial, ficaram muito famosos os condottiere das rep?blicas italianas con- tempor?neas de Machiavelli, e no qual este se baseia para tirar as conclus?es abaixo citadas. E ainda ? famosa, hoje, a Guarda Su??a36: ?The Pope is protected by the Swiss Guard, the evolution of a regiment hired in 1502 to fill out the forces of Pope Julius II.? A Revolu??o Gloriosa na Inglaterra (1688) e, sobretudo, a Revolu??o Francesa (1789) e as Guerras Napole?nicas (1793-1814) politizaram e difundiram causas37 pelas massas. A lealdade a estas causas e ao seu pa?s, o patriotismo ou nacionalismo, deram origem ao direito e ao dever de cada um defender a sua p?tria, a sua na??o e o seu estado; esse direito e esse dever tornaram-se factores mobilizadores das popula??es38: ?[?] the year 1792, and the country France, might be set as its date and place of birth [of nationalism]. For it was the French Revolution that established the People as a self- -conscious unit; foreign attack upon the Revolution created the Nation in arms [?]? 33 ?O militar que se alista numa for?a armada, fora do seu Estado ou Na??o, mediante retribui??o estipulada por contrato?; cf. Mercen?rio, VELBC (1972); vol.13, col. 371. 34 Para uma narrativa cr?tica de v?rios casos, desde a Antiguidade Cl?ssica aos nossos dias, ver Schelling (1966); Fawcett, editor (1999); Davis (2000); e Singer (2003). 35 Cf. Davis (2000) p. 172. 36 Cf. Singer (2003) p. 27. 37 Como a ideia de ?Liberdade, Igualdade, Fraternidade?, de ?la patrie?, ambas em Fran?a, e de ?volk? na Pr?ssia. 38 Cf. Herz (1951) p. 68. Jorge Silva Paulo 123 A na??o em armas39 passou ent?o a constituir a principal fonte (e tamb?m a mais barata, pecuniariamente) de recrutamento de militares40: ?Above all, because the French soldier was not a product of many years of arduous training designed to inhibit his natural reactions, he was more expendable. Bonaparte?s armies could be continually and quickly replenished. Bonaparte was defeated when the patriotic fervor of other populaces was awakened and turned against him, [?]? Por?m, Machiavelli j? defendia no s?culo XVI a superioridade da ideia de na??o em armas41: ?[...] um principado ou uma rep?blica devem ter as suas mil?cias pr?prias; que, num principado, o pr?ncipe deve dirigir as mil?cias em pessoa e exercer o cargo de comandante; e nas rep?blicas, um cidad?o; [...]? A inven??o do patriotismo ?democratizou? a guerra, ao torn?-la (apesar dos paci- fistas) uma quest?o da na??o: esta interv?m n?o s? no combate mas tamb?m na prepa- ra??o, planeamento e apoio log?stico ? da? a ideia de guerra total. Neste quadro, apesar de ser a excep??o hist?rica, a na??o em armas satisfez bem os requisitos que lhe deram origem. Claro que a conscri??o tem gozado da prefer?ncia de muitos governos, porque, para eles, ? pecuni?ria e or?amentalmente mais barata ? a remunera??o dos conscritos ? mais baixa do que a dos profissionais ?, e mais simples ? procurar e recrutar volun- t?rios tem um grau de incerteza que o recrutamento obrigat?rio elimina. Mas a an?lise de custos-benef?cios deve considerar mais do que as dota??es or?amentais directas, para incluir todos os custos e benef?cios sobre a sociedade. 39 Modelo assente no recrutamento obrigat?rio e na exclus?o de estrangeiros para as FA, de acordo com o princ?pio de que quando existem amea?as ? seguran?a de um pa?s ? ou santu?rio ? devem ser, por direito e por dever, os respectivos cidad?os a tratar da sua defesa. 40 Cf. Rapoport (1974) p. 218. 41 Cf. Machiavelli (1996) p. 78 (tradu??o livre). ?Na tradi??o, o maquiavelismo ficou a designar o conjunto de procedimentos amorais que visam adquirir e manter o poder, e o pr?prio analista adquiriu a imagem da amoralidade. N?o parece justa esta consequ?ncia, porque Machiavelli distinguiu aquilo que lhe parecia a realidade da competi??o pol?tica, da apolog?tica que tamb?m faz a favor de um Estado constitucional, com divis?o e equil?brio de poderes [...].?; cf. A.Moreira (1997) p. 28. Empresas Militares 124 A na??o em armas retirou espa?o ao mercen?rio, que se tornou apenas num com- batente por conta pr?pria ao servi?o duma organiza??o militar distinta das FA do seu pa?s42; ? luz de certos instrumentos de direito internacional (ver abaixo) isto passou a ser um modelo ileg?timo de uso da viol?ncia. Os conscritos e os militares podem ser bem remunerados, e serem t?o ou mais repugnantes ou violentos que os merce- n?rios, mas o seu mau nome actual deve-se ?s ac??es de alguns, especialmente mas n?o s? nos anos 1960-7043, contra a autodetermina??o de povos e apoio a ditaduras, por vezes contra as FA dos seus pr?prios estados de origem, envolvendo um grosseiro desrespeito dos direitos humanos, e pela sua colabora??o em inger?ncias nos assuntos internos de estados44. Contudo, ? de notar que estas ac??es se d?o no contexto da Guerra Fria. Mas esta trouxe a mudan?a dos requisitos do uso da viol?ncia na pol?tica (a defesa da p?tria, da na??o que sobre ela vive e do estado): hoje, incluem a interven??o onde a vida humana esteja a ser destru?da em massa, ou haja grande probabilidade de vir a ser. N?o custa imaginar que danos ecol?gicos venham a constituir raz?o de interven??o pela viol?ncia num futuro pr?ximo. Acresce ainda que, apesar do seu fim pac?fico, as novas miss?es s?o muito mais onerosas do que pode parecer, e n?o deixaram de ter custos humanos. E se as pessoas afirmam em sondagens que ? necess?rio ?algu?m? acorrer a resolver crises humanit?rias e guerras civis, poucas mostram compreens?o e toler?ncia com os custos humanos, especialmente se forem sociedades distantes e pobres45. Se ? poss?vel detectar algum ego?smo e dualidade de valores nestas posi??es, n?o ? de desprezar a dificuldade que um governo tem de explicar, a pessoas livres e respectivas fam?lias (compondo um grupo significativo de eleitores), que fronteiras ou que pessoas v?o defender e pelos quais poder?o ter que morrer46. E n?o ser? muito mais f?cil explicar e convencer mili- tares profissionais e respectivas fam?lias, um conjunto tamb?m significativo de eleitores, 42 Os Gurkha nepaleses e os estrangeiros das Legi?es Francesa ou Espanhola n?o s?o considerados mer- cen?rios pelo direito internacional, pois s?o membros das FA, respectivamente, do Reino Unido, da Fran?a e da Espanha. 43 ?When President Mobutu hired Serbian mercenaries to save his government in Zaire in 1997, the Serbs murdered so many Congolese that even the president?s loyal army units turned on them.?; cf. Davis (2000) p. 182. 44 Cf. O?Brien (2002) p. 8. O mau nome deveu-se ?s ac??es de pessoas como o irland?s Mad Mike Hoare, o belga Christian Tavernier, ou o franc?s, Bob Denard, em guerras civis e golpes de estado em ?frica. 45 Ou se nem for f?cil encontrar uma l?ngua geral comum. 46 Para usar a expressiva frase do Professor Adriano Moreira. Jorge Silva Paulo 125 e que tamb?m tende a ser facilmente referenci?vel pela comunica??o social, por se concentrarem em determinados aglomerados urbanos. Por outro lado, n?o custa demonstrar que ? economicamente mais eficiente e so- cialmente menos pol?mico resolver um conflito antes dele deflagrar em pleno47. Mas h? interven??es que ser?o menos onerosas se realizadas por privados48: ?UN intervention in Angola cost $1 million a day ? $365 million in one year ? and achieved absolutely nothing. The South African PMC, Executive Outcomes, charged the Angola government $80 million over two years and got UNITA to the conference table, putting an end to the war in a matter of months.? Ou, segundo outro exemplo que foi amplamente debatido em p?blico49: ?Executive Outcome?s total fee for the nineteen months in Sierra Leone, was $35 million against more than $600 million for the current number of troops [of ECOMOG].? Como ? sabido, n?o ? elevada a efic?cia das opera??es da ONU50: ?From the first disastrous mission in the Congo in 1961 through to the present, [2000] the ?Blue Helmets? have yet to end a war.[?] Why have the UN peacekeepers been so uniformly unsuccessful? Because history has shown us quite clearly that soldiers and armies can win battles and defeat their enemies, but they cannot end wars. That must be a political function.? S? que a redu??o dos dispositivos e das despesas militares nos estados ocidentais51 diminuiu a capacidade das suas FA acorrerem ?s novas crises, ao ritmo a que elas t?m surgido ap?s o fim da Guerra Fria (1990). S?o problemas a mais para os recursos que as sociedades ocidentais est?o dispostas a afectar ? sua solu??o e que os pol?ticos se sentem capazes de defender52: 47 Ver Brown, Rosecrance (1999) pp. 221-226. 48 Cf. Spicer (1999) p. 23. 49 Cf. Shearer (2001). 50 Cf. Davis (2000) p. 173. 51 Al?m destes s?o totalmente excepcionais e circunstanciais os exemplos de outros pa?ses capazes de realizar estas miss?es; importa citar uma dessas excep??es: a Nig?ria. 52 Cf. Spicer (1999) p. 16. Empresas Militares 126 ?The world?s political leaders are afraid of political or military involvement in the world?s endemic conflicts because they don?t want the bodybags coming home as in Vietnam or, more recently, Somalia, or because they don?t want to take risks or to be blamed if matters go awry, or, rather less creditably, because they simply want to be popular and garner votes at home.? Poder? diminuir-se o valor da anterior cita??o por ter origem numa pessoa com interesses materiais no sector, j? as seguintes mostram que esta conclus?o tem mais apoio: ?[?] little evidence suggests that the leading powers will militarily re-engage in regions unless they have strategic importance.?53 ?If the great powers, collectively or individually, are not willing to take up the role of global police in unlikely or unrewarding places, it is equally certain that others will fill that vacuum for good or for ill. In the end, the issue of mercenaries comes down to a question of deciding what kind of world we want and are willing to pay for, both in blood and money.? 54 Al?m disso, o emprego de FA em miss?es na fronteira entre opera??es de pol?cia e opera??es militares de baixa intensidade ? uma forma ineficiente de afectar recursos, j? que a prepara??o, o apoio log?stico e de meios materiais muito mais sofisticados das FA55 s?o muito dispendiosos e, frequentemente, em total despropor??o face ?s necessidades concre- tas56 (como sugere a cita??o sobre Angola). Sem esquecer que a mobiliza??o das FA das bases para os teatros de opera??es, dado o volume de equipamento a deslocar e o sistema de apoio log?stico a estabelecer, demoram, por vezes at? mais do que a situa??o toleraria. Tal despropor??o poder? at? induzir um dilema de seguran?a57 local: as pessoas afectadas pela crise humanit?ria (situa??o t?pica que justifica uma interven??o militar de 53 Cf. Singer (2003) p. 231. 54 Cf. Adams (1999) p. 115. 55 Em linguagem econ?mica, as miss?es militares (onde o emprego da for?a tem m?dia ou alta intensidade) s?o muito mais capital-intensivas do que as ac??es de baixa intensidade e policiais. 56 Sem d?vida que as situa??es impl?citas nesta an?lise s?o muito vol?teis e, mesmo quando parece imperar a calma, pode estar em fermenta??o alguma crise, cuja expans?o pode n?o ser control?vel sen?o por FA. 57 O paradoxo ou dilema da seguran?a (security dilemma) cuja formula??o original se pode encontrar em Herz (1951) e aprofundada em Jervis (1976) e Jervis (1978), consiste em as iniciativas tomadas por uma entidade para aumentar a sua seguran?a, n?o deixarem indiferentes os vizinhos: estes formam uma per- cep??o do aumento de protec??o da primeira, e concluem se esse aumento s? visa a defesa ou se pode ter fins ofensivos; neste caso, procuram armar-se e gera-se uma corrida aos armamentos, ou mesmo um confli- to armado. Por exemplo, ? de admitir que numa miss?o de manuten??o de paz, as popula??es locais vejam as for?as estrangeiras como uma amea?a, sobretudo quando estas estejam muito armadas e a sua presen?a seja muito intrusiva ? condi??es estas que s?o hoje t?picas e necess?rias para a protec??o das FA modernas. Jorge Silva Paulo 127 baixa intensidade) podem sentir que as FA, em princ?pio pacificadoras, s?o uma amea?a ? sua seguran?a; pensar?o que ir?o resolver pequenos conflitos e erros menores com uso excessivo da for?a ? os militares s?o treinados para a usar, e n?o para ser pacientes e confiarem nas virtudes do di?logo ? e os meios que t?m quase excluem alternativas58; e se nada fazem, para evitar a ideia de despropor??o de meios face aos problemas, acabam por permitir a desordem e dar espa?o aos desordeiros. Al?m disso, n?o ? f?cil expelir a ideia, formada pelos locais, duma for?a militar ser ocupante. H? ainda outras mudan?as sociais e tecnol?gicas que for?am a uma evolu??o: ? O desenvolvimento tecnol?gico e o n?vel de sofistica??o dos sistemas exigem um n?vel profundo, mas ecl?tico, de profissionaliza??o para atingir efic?cia e efici?ncia (elevados padr?es de desempenho a custos aceit?veis). ? As popula??es dos estados de direito democr?ticos n?o sentem amea?as externas e, ainda mais, duvidam que a defesa nacional se possa fazer longe dela ou preven- tivamente. ? O avan?o das privatiza??es e da obten??o de bens e servi?os fora das FA tem alargado a depend?ncia destas em rela??o a entidades privadas; de certa forma, era de prever que a privatiza??o chegaria a ?reas mais sens?veis da seguran?a e da defesa. ? Por fim, o colapso dos estados colectivistas e o aprofundamento do estado de direito tem vindo a delimitar mais finamente a esfera de autonomia individual ? e, a par, t?m vindo a ser postos em causa os pressupostos filos?ficos da conscri??o. ? espe- cialmente dif?cil de justificar o recurso ? conscri??o numa sociedade livre e em paz59. Opera??es militares por privados O papel tradicional do estado A voca??o das FA nacionais para defender um estado de amea?as externas, obriga-as a ser capazes de dissuadir e retaliar, at? nos mais altos n?veis de intensidade da viol?ncia; 58 Nesse sentido, ver Bronson (2002). 59 Ver Warner,Asch (1995) pp. 373-379; e Paulo (2003). Empresas Militares 128 ? essencial n?o perder de vista que o poder militar resulta da capacidade de infligir custos e causar danos60: ?[?] military force can be used to hurt. In addition to taking and protecting things of value it can destroy value. In addition to weakening an enemy militarily it can cause an enemy plain suffering [...]? Max Weber e outros61 reconhecem-no implicitamente, quando consideram que um estado tem como caracter?stica constitutiva o monop?lio da viol?ncia leg?tima62: ?[...] une entreprise politique de caract?re institutionnel lorsque et tant que sa direction administrative reventique avec succ?s, dans l?application des r?glements, le monopole de la contrainte physique l?gitime.? Nesta l?gica, s? ao estado deve caber a aplica??o leg?tima da viol?ncia: as actividades de mil?cias privadas, mercen?rios ou empresas militares (ainda que sejam legais) s?o consideradas ileg?timas e prejudiciais ?s sociedades. Esta l?gica n?o se confunde com as vis?es colectivistas, que afirmam estas posi??es (excepto quando se trata de grupos amigos, designados de liberta??o ou opostos ao capitalismo, e ? ?globaliza??o?; nestas condi??es, no passado, como hoje, at? pode haver, para estas correntes, merce- n?rios bons ? mas com outro nome, politicamente correcto). Os preconceitos do lucro e da privatiza??o Tamb?m para muitos, privatiza??o e lucros s?o conceitos que n?o conseguem associar a FA e a servi?os p?blicos, mais por preconceito do que com raz?es s?lidas63. Por isso, ? f?cil encontrar na comunica??o social express?es como ?privatizar ? entregar a alguns o que ? de todos?, nem custar? imaginar outras como ?servi?os de defesa significa mercen?rios e mercen?rios/?soldados da fortuna?/dogs of war significa mau. Mas a pr?tica insistente do ?ser? ou do ?dizer alto? n?o cria o ?dever ser?; 60 Cf. Schelling (1966) p. 2. 61 Nesse sentido, ver Leander (2002b). Tamb?m Joseph Stiglitz defende que os dois elementos essenciais do estado s?o os poderes de coer??o e os fins gerais; cf. Stiglitz (1993) p. 37. 62 Cf. Weber (1995) p. 97. 63 Trata-se de uma discuss?o fascinante, mas deslocada neste ensaio. Jorge Silva Paulo 129 nem devem confundir-se meios com fins: se o que se visa ? defesa e seguran?a, h? que procurar a melhor solu??o com esp?rito aberto, dentro dos valores culturais e civilizacionais, sem excluir nenhuma dogmaticamente. O facto dos exemplos con- cretos se localizarem neste ou naquele continente, ou terem algo de inusitado, n?o dever? obstar a tentar perceber o que est? em causa e que m?ritos e aplicabilidade t?m. Seja como for, quem procure provar o contr?rio n?o deixa de enfrentar uma audi?ncia adversa64: ?[...] privatized security highlights a clash between some basic deeply-held values. There are tensions between the goals of security and profit, revolving around both (1) whether regime perpetuation or revenue maximization should take precedence and (2) whether coercive force should be a market commodity or a prerogative of the state.? Contudo, o fim lucrativo ? um meio, de efic?cia comprovada, para motivar as pes- soas e obter eficiente afecta??o de recursos e crescimento da riqueza; por isso mesmo, cada vez mais pessoas reconhecem a validade noutras organiza??es de numerosos aspectos da gest?o de empresas65. E isso contribui para afirmar que a privatiza??o tem um lugar na mudan?a que abaixo se prop?e, ali?s com um suporte razo?vel de litera- tura jornal?stica, t?cnica e cient?fica66, e propostas s?rias67: ?[...] An overall global pattern is emerging, one of growing reliance by individuals, corporations, states, and international organizations on military services supplied not just by public institutions but also by the nonsovereign private market. [?] The emergence of a privatized military industry may well represent the new business face of warfare.? O outsourcing, o contracting out e a privatiza??o s?o pol?ticas que envolveram muitas reac??es negativas, mas t?m sido assimiladas pelas sociedades, por se reconhecerem os ganhos que trazem. A privatiza??o tem avan?ado desde os anos 1980 em muitos 64 Cf. Mandel (2000) p. 147. 65 Uma empresa ? ?uma organiza??o que combina capital, trabalho e t?cnica para produzir bens e servi?os, a fim de serem vendidos num mercado mediante um pre?o, com vista a obter lucro?; ver Amaral (2000) p. 366. 66 Nesse sentido, ver Micklethwait (1982); Harker (1998); Keegan (1998); Shearer (1998); Zarate (1998); Brauer (1999); Isenberg (1999); Fabricius (2000); Forsyth (2000); Isenberg (2000); Lilly (2000b); Marguin (2000); Mbogo (2000); Schulhofer-Wohl (2000); M.dos Santos (2001); Creehan (2002); HC (2002); Selba, Jobarteh (2002); Smith (2002); Bourge (2003); Fidler, Cat?n (2003); Sidos (2003); e Singer (2003). 67 Cf. Singer (2003) p. 18. Empresas Militares 130 sectores (na Europa, tradicionalmente dependentes dos governos), por se ter conclu?do que a produ??o pelo sector p?blico ?, muitas vezes, ineficiente e ou ineficaz. Tamb?m as FA j? abandonaram, na maioria dos estados ocidentais, a produ??o interna de bens e servi?os, e a ideia de auto-sufici?ncia, em favor da explora??o da divis?o do trabalho e dos princ?pios da vantagem comparativa e da vantagem competitiva ? quer dizer, no caminho da efici?ncia econ?mica. Deixaram de ser contestadas a exist?ncia e a legitimidade de mercados de factores, nos quais as FA obt?m recursos para a sua actividade produtiva. Analogamente, j? n?o ? contestada a presta??o de servi?os de seguran?a de instala??es e de pessoas por entidades privadas (em pa?ses como a Dinamarca e o Reino Unido, ? quase igual o n?mero de pol?cias e de agentes privados de seguran?a68); j? nem as fun??es das pol?cias s?o apan?gio exclusivo do estado, se ? que alguma vez o foram69. O paralelo com a seguran?a privada de instala??es n?o pode deixar de ser invo- cado: a antiga ideia de monop?lio da viol?ncia leg?tima no estado (neste caso, atrav?s das pol?cias), h? muito que foi quebrada e criaram-se numerosas empresas de segu- ran?a de bens e pessoas (sujeitando-as a regula??o n?o-asfixiante), integrando-as na vida normal das sociedades70, e aumentando o emprego. Apesar de ter havido reac- ??es, n?o se pode dizer que isso tenha causado convuls?es nem grave turbul?ncia social, e os problemas que existem com pessoas nessas ?reas surgiriam, provavel- mente, no estado, pois a causa estar? mais na natureza violenta das pessoas em quest?o. De facto, hoje existem unidades militares, at? em Portugal, cuja seguran?a ? feita por empresas civis, t?o bem e mais barata. Privados em ac??o Por outro lado, sem a privatiza??o da seguran?a estariam em risco bastantes mis- s?es privadas de apoio humanit?rio, ou a seguran?a de trabalhadores e instala??es de 68 A frac??o de efectivos p?blicos sobre o total de agentes de seguran?a ?: EUA, 42%; Reino Unido, 53%; Dinamarca, 55%; Alemanha, 60%; Portugal, 74%; Fran?a, 76%; Espanha, 78%; It?lia, 86%; e Gr?cia, 95%. Cf. Beauvau (2002) p. 10. 69 Nesse sentido, ver Beauvau (2002) pp. 10-12. 70 Claro que existem abusos e crimes cometidos por empregados dessas empresas; a sua actividade atrai elementos menos bons da sociedade ? como atra?a quando ela era realizada pelas APN, j? que ? delas que tendem a vir tais elementos ?, e ? por isso mesmo que se requer adequada regula??o. Jorge Silva Paulo 131 empresas muito expostas, como a explora??o mineira71. A rela??o entre ESMP e o apoio humanit?rio surpreender? alguns72: ?[?] even when (as is often the case) aid workers and firms dislike to rely on PMCs, the alternative is often not to engage in conflict areas. This is not an option. [...] For ?humanitarians? it would imply that they could not work where they are needed. Consequently, both firms and humanitarians rely extensively on PMCs [...] In the UN system the UNHCR, UNICEF, UNDP, WFP amongst others declare to have used private security services [...]? Ou, segundo outro autor com experi?ncia directa73: ?Virtually every major international aid organization now employs its own shadow professionals to organize security and logistics. While the advertising and fund-raising pitch may focus on the noble, neutral, and peaceful efforts of the aid groups in zones of conflict, the reality on the ground is much different. [?] In Somalia, Rwanda, the Sudan, Ethiopia, and numerous other African states, aid organizations must hire armed guards to defend them both while out in the communities and in their base camps.? Actualmente, ? mais comum a privatiza??o da viol?ncia por recurso a mercen?rios e mil?cias do que a ESMP, pela flexibilidade que permite, num ambiente de secretismo e clandestinidade74. Mas o simples aparecimento das PMC nos anos 1990, sugere uma mudan?a de fundo sobre o mercen?rio, free lancer, ad-hoc, sem escr?pulos e que combate por uma elevada remunera??o75. Tudo isto n?o significa que se ignorem os riscos, por exemplo, de entidades privadas obterem (e virem a usar!) armas indesej?veis ? embora deva ser m?nimo, se elas estiverem integradas na sociedade; e dificilmente haver? melhor e mais eficaz motivo de integra??o do que a busca do lucro, sob regula??o. 71 Nesse sentido, ver Lilly (2000a); Singer (2001); e O?Brien (2002) p. 8. 72 Cf. Leander (2003) p. 4. 73 Cf. Davis (2000) pp. 179-180. 74 Houve mercen?rios montenegrinos, s?rvios b?snios, franceses, sul-africanos e angolanos na defesa do regime de Mobutu, no Zaire; cf. Ballesteros (1998). E ainda russos na Eti?pia, ucranianos na B?snia, Kosovo e Chechnia; cf. Kelly (2000). 75 N?o ? raro que mercen?rios contratados por governos sejam remunerados com longas e exclusivas concess?es de minas de metais preciosos; cf. Douglas (1999) pp. 175-200. Ver tamb?m Chatterjee (1997); e Cilliers et al (1999). Empresas Militares 132 Miss?es a atribuir a privados Em geral, uma entidade deve obter externamente algo de que necessita para a sua actividade produtiva se a produ??o interna tiver uma raz?o de custos-benef?cios superior; racioc?nio que ? v?lido para a obten??o de servi?os de seguran?a e defesa por parte de um estado: este pode obter aqueles servi?os por contratos com entidades externas pri- vadas, em vez das suas FA, se estas n?o oferecerem a melhor rela??o de custos-benef?cios76. De facto, as FA tradicionais poder?o n?o oferecer a solu??o mais econ?mica para todas as miss?es, porque: ? S?o meios muito caros. ? Demoram muito tempo (meses) a posicionar-se onde s?o precisas hoje em dia. ? Est?o pouco vocacionadas e treinadas para o uso da for?a com baixa intensidade; a sua maior voca??o ? a ocupa??o de territ?rio, ou o combate a um ocupante para o desalojar. Assim, as pessoas numa sociedade podem melhorar o seu bem-estar, se admitirem que a tese do monop?lio da for?a leg?tima pode ter uma nova interpreta??o: ao estado caber? o monop?lio da responsabilidade e da provis?o da for?a leg?tima, mas deixar? a sua produ??o a outras entidades, como empresas de seguran?a e militares privadas77 (ESMP), quando n?o estejam em causa a defesa nacional propriamente dita. N?o s? pode aumentar a efici?ncia econ?mica, como baixar a impopularidade de algumas miss?es em zonas distantes e pobres, podendo as baixas ser menos sentidas. Desde que sejam definidos bons contratos (mais f?ceis do que em rela??o ? defesa), e sendo bem reguladas, n?o se v? nada de fundamentalmente errado em que empresas prestem servi?os militares a governos leg?timos. As Miss?es de Petersberg78 ou, na NATO, military operations other than war (MOOTW), s?o tipicamente, miss?es de baixa e m?dia intensidade, est?o na fronteira entre ac??es de 76 Este ? o tipo de an?lise, baseado no modelo de gest?o empresarial, que uma empresa faz e que a leva a procurar no mercado certas actividades ou tarefas que n?o s?o cr?ticas para o seu processo produtivo. E ? tamb?m um tipo de an?lise que pode e deve ser aplicado nas APN para aumentar a sua efici?ncia, e prestar um melhor servi?o aos cidad?os-contribuintes. 77 Tamb?m chamadas na literatura Transnational Security Corporations (TSC) e Privatized Military Firms (PMF). 78 Definidas na Declara??o de Petersberg da Uni?o da Europa Ocidental (UEO) de 19-06-1992. Do nome do hotel-castelo perto da capital alem? (Bonn), onde se realizou a cimeira da UEO, que as sistematizou, e que Jorge Silva Paulo 133 pol?cia e combate, n?o s?o f?ceis de explicar aos contribuintes (que t?m de as suportar) e, sobretudo, aos familiares dos militares envolvidos. E ? muito dif?cil para as popu- la??es conciliar estas miss?es com o conceito de soberania que aprenderam na sua forma??o b?sica. Por isso, provavelmente, est?o na primeira linha da privatiza??o da viol?ncia leg?tima; julga-se que s? o Reino Unido est? a estudar sem preconceitos novas op??es que passam pelas ESMP79 para estas miss?es. Podem sempre conceber-se e organizar-se FA para desempenhar Miss?es de Petersberg ou MOOTW, mas subsiste o problema de serem eficazes e eficientes a desem- penhar as suas miss?es tradicionais ? de que n?o s?o dispensadas ? al?m das novas; tornar as FA capazes de fazer tudo, torna-as ainda mais caras e ineficiente o seu emprego. Note-se que n?o se mandam equipas de opera??es especiais de pol?cia controlar carros estacionados nas ruas80: as suas capacidades superam em muito as necessidades da situa??o, o seu emprego ? caro, e a despropor??o traduz inefici?ncia na afecta??o de recursos. Tamb?m com as pol?cias h? problemas de efici?ncia, apesar de estarem mais voca- cionadas para miss?es de apoio humanit?rio. O problema, neste caso, ? que os quanti- tativos globais do seu pessoal n?o s?o dimensionados a contar com este tipo de miss?es transit?rias, logo, o pessoal em servi?o no exterior faz falta e gera tens?es ? e se forem dimensionados para estas miss?es, sendo transit?rias, tem-se pessoal subocupado muito tempo. A exist?ncia e expans?o das ESMP num sector dominado pelo estado81 nos ?ltimos duzentos anos, traduz a divis?o do trabalho estrat?gico82 neste contexto83: ?[?] countries importing security companies gain quick access, with seemingly no political strings attached, to needed military expertise during a crisis. The contracting country can use and dispose of these services readily without concern for the company?s political ambitions or for political favors which may need to be repaid. This ?clean hands? s?o: miss?es humanit?rias e de evacua??o; miss?es de manuten??o da paz e miss?es de for?as de combate para a gest?o de crises, incluindo miss?es de restabelecimento da paz. Ver n? 2 do art? 17? TUE. 79 Nesse sentido, ver The Economist (2002) p. 36. 80 A menos que espere que eles estejam armadilhados ou relacionados com crime organizado; isto ?, est? em causa uma expectativa de um n?vel elevado de viol?ncia, para o qual as for?as normais n?o est?o bem preparadas. 81 Uma base de dados neste dom?nio consta de Isenberg (1997). 82 Tal como proposto por M. Santos (2001) p. 104, aplicando o conceito de divis?o do trabalho estrat?gico referido entre outros por L. Santos (2001) pp. 141-156. 83 Cf. Zarate (1998) p. 75. Empresas Militares 134 approach to foreign policy appears dangerous to those who see transparent nation- -state accountability as essential to controlling human rights violations and the type and quality of military activity throughout the world.? E mais ? frente84: ?[?] the emergence of security companies represents a new form of state agency which will persist as long as governments need military aid.? Mercado de servi?os militares Goste-se ou n?o, h? um mercado de servi?os militares: a procura ? composta por indiv?duos, governos e organiza??es humanit?rias, entre outros; e a oferta, por mercen?rios e ESMP. Sabe-se de 15 contratos de 1950 a 1989 e 80 ap?s 199085, concre- tizados em ?frica (Angola e Serra Leoa), na ?sia (Papua Nova-Guin? e Ind?n?sia), na Am?rica do Sul (Col?mbia), e na Europa (ex-Jugosl?via). O mercado ser? mal regulado, ter? mau nome e exigir? uma prudente avalia??o dos custos directos e, sobretudo, indirectos e no longo prazo86. Mas existe e o seu crescimento sugere que a oferta est? a satisfazer a procura (que n?o ? pouca, embora n?o haja informa??o dispon?vel sobre a dimens?o do mercado ou os valores dos contratos). Falta uma boa e adequada regula??o, e que as sociedades interiorizem o ?mbito de actua??o deste mercado. Pode optar-se por ilegalizar este mercado e punir os infractores, criando um efeito dissuasor; simplesmente, o mercado cruza as fronteiras dos pa?ses e se num ? proi- bido, noutro n?o o ser? e a oferta muda-se para outro pa?s menos intrusivo e mais tolerante87 ? e n?o haver? falta de estados que os aceitem, porque h? procura88: ?[?] the security companies market has developed because there is a need for such services in the world. Security companies provide valuable services in restoring order and 84 Cf. Zarate (1998) p. 116. 85 Cf. HC (2002) pp. 28-38. 86 Nesse sentido, ver Lewis (1998); Lilly (1998); Sheppard (1998); Adams (1999); IA (1999); Brooks (2002a); Brooks (2002b); Smith (2002). 87 N?o ? leg?timo ler aqui algum tipo de apoio do autor ao funcionamento de mercados ilegais; o que est? em causa ? reconhecer um facto, para depois determinar a melhor forma da sociedade lidar com ele. 88 Cf. Zarate (1998) p. 152. Jorge Silva Paulo 135 preventing internal conflicts from becoming international in scope in countries often ignored by the rest of the world.? De facto, as pessoas t?m uma capacidade infinita de imaginar e conceber e tratam de resolver os problemas que lhes surgem dos modos que cr?em ser os melhores, dado os constrangimentos e a informa??o que possuem (racionalidade). Assim, desde que haja procura (existe necessidade), oferta contra remunera??o (quem esteja a disposto a satisfaz?-la, no ?mbito duma troca), e desde que ambas se possam encontrar e acordar entre si livremente os termos da troca, h? um mercado ? apesar de ser socialmente reprovado ou operar na clandestinidade. Por exemplo, a oferta pode adoptar uma fa- chada legal ? luz da jurisdi??o em que tem sede, mas realizar discretamente outra actividade, essa sim principal. Eliminar um mercado que pode oferecer solu??es econ?micas para problemas im- portantes consome recursos que poder?o ter melhores usos alternativos; uma boa parte desse consumo ter? de se fazer em fiscaliza??o, para dissuadir e punir os infractores. Uma solu??o mais eficiente ? preferida pelas pr?prias ESMP89 ? passa por inserir o mer- cado na economia legal, sob um quadro regulador rigoroso e firme, e que incentive a actividade, sem vantagem para a clandestinidade. A oferta de servi?os militares A oferta ? constitu?da por todas as entidades que ofere?am servi?os de seguran?a e militares contra remunera??o90, e est? segmentada e esquematizada na tabela I. Mas conv?m notar que esta segmenta??o n?o obsta a que diversas empresas do sector cruzem os limites definidos e estejam presentes em mais do que um segmento. De notar ainda que a sistematiza??o indicada est? orientada para a presta??o de servi?os fora do estado de sede. 89 Nesse sentido, ver SI (1998a) e SI (1998b). 90 Para uma perspectiva hist?rica, ver Avant (2001) e Berndtsson (2001) pp. 11-13. Empresas Militares 136 A grande diferen?a entre mercen?rios e PMC activas situa-se no car?cter da sua organiza??o: os mercen?rios s?o free lancers que se associam para executar um contrato, desfazendo-se o grupo no fim, sem responsabiliza??o; as PMC dever?o ser sujeitas a regula??o e ser permanentes (n?o t?m dura??o definida a priori). Depois, a integra??o das PMC na legalidade lev?-las-? a evitar oferecer e evitar prestar, os seus servi?os a clientes (estados e movimentos revoltosos) que n?o sejam reconhecidos internacional- mente. A sujei??o ao direito e a procura duma regula??o justa s?o meios de obter a respeitabilidade, que n?o abunda em rela??o aos mercen?rios, e que podem assegurar a longevidade do mercado, com mais baixos riscos e custos. ? razo?vel assumir que as ESMP, como empresas e, por consequ?ncia, terem fim lucrativo, visam ter uma longa vida de lucros na sua actividade, pelo que ? ra- cional que, consistentemente e na sua maioria, se esforcem por criar boa reputa??o e boa rela??o com os clientes ? autoridades p?blicas. Claro que, como qualquer outra empresa, as ESMP cometem e cometer?o erros que prejudicar?o a sua reputa??o; mas aqui, com a inevit?vel aten??o do mundo e dos opositores, ser? dif?cil ter mais do que uma oportunidade de errar ? e actuar e errar na clandestinidade s? vai aumentar os riscos e os custos em rela??o ?quelas ESMP que actuam na legalidade. Tabela I ? Segmenta??o dos servi?os militares Mercen?rios Todo o leque Clearchus Condottieri Swiss Guards von Rosen Empresas de Servi?os N?o-Letais / / NSP desminagem apoio log?stico avalia??o de riscos PA&E Brown & Root ICI of Oregon Empresas de Seguran?a Privadas / /PSC91 seguran?a de: miss?es de ajuda humanit?ria instala??es industriais embaixadas treino ArmorGroup Wackenhut Gurkha Security Guards Empresas Militares Privadas / /PMC desminagem treino militar combate informa??es militares Executive Outcomes Sandline International MPRI miss?es exemplos Fontes: Fawcett ed (1999); Brooks (2002b) p. 3. 91 Seguem de perto as empresas nacionais equivalentes, como a Group 4 (no RU) e a Securitas (em Portugal). Jorge Silva Paulo 137 As empresas de servi?os n?o-letais n?o s?o especialmente relevantes neste con- texto. Os mercen?rios foram j? caracterizados acima, pelo que n?o ser?o considerados de novo. Importa, por?m, analisar os restantes casos92: ? Empresas de Seguran?a Privadas ou Private Security Companies (PSC): oferecem assessoria, treino, apoio log?stico e seguran?a e defesa de pessoas e bens em ambientes turbulentos e inseguros. Cresceram muito no s?culo XX, em especial, na seguran?a de explora??es de hidrocarbonetos e de minas em ?frica93. As PSC estar?o mais vocacionadas para situa??es de crise humanit?ria, em que a tens?o das pessoas afectadas, tantas vezes em grandes aglomera??es, facilita a exalta??o e a fermenta??o de motins, afectando, por exemplo, a distribui??o de mantimentos. Pessoal uniformizado, disciplinado e armado ? mas n?o muito ? dissuade os agitadores e ajuda os mais exaltados a acalmarem-se. As PSC podem tamb?m servir para tomar conta de dep?sitos de alimentos, dissuadindo os ladr?es; ou, em geral, para a seguran?a f?sica de instala??es e entidades. ? Empresas Militares Privadas ou Private Military Companies(PMC): efectuam ope- ra??es militares e podem ser de dois tipos: as activas, que realizam opera??es militares94, como desminagem95; e passivas, orientadas para assessoria e treino militar ou militarizado96. S?o especialmente ?teis em pa?ses pobres, ou cujos apa- relhos de estado entraram em colapso ou grave crise de autoridade. Ficaram fa- mosas a Executive Outcomes, criada na Rep?blica da ?frica do Sul em 1992 e dissolvida em 199997 e a Sandline International, criada no Reino Unido em 1995. H? ainda muitas mais, criadas por, e integrando, ex-militares sul-africanos, americanos, do Reino Unido, ucranianos e russos98, entre outros, em boa parte a partir dos seis milh?es de militares desmobilizados desde o fim da Guerra Fria. 92 De notar que embora o direito internacional e alguns ordenamentos jur?dicos nacionais desprezem a fi- gura do mercen?rio, as PMC podem ser toleradas e as PSC apreciadas. 93 Cf. O?Brien (2002) p. 8. 94 Por exemplo, quando um estado contrata com uma empresa o combate a for?as advers?rias ou insurrectos, como sucedeu em Angola com a Executive Outcomes ? ver Deen (1997) ? ou na Papua-Nova Guin?, com a Sandline International ? ver Mbogo (2001). 95 Caso da Executive Outcomes em Angola; cf. HC (2002) p. 8. 96 Por exemplo, o apoio dado pelos EUA no treino das FA croatas tem sido canalizado atrav?s da empresa Military Professional Resources Incorporated (MPRI); cf. Kelly (2000). 97 Para uma descri??o da hist?ria e an?lise da EO, ver Hasham (2003). 98 Existem cerca de 12 mil PSC registadas na R?ssia, onde foram desmobilizados centenas de milhares de soldados com o fim da Guerra Fria; cf. O?Brien (2002) p. 3. Empresas Militares 138 As PMC estar?o mais vocacionadas para miss?es de manuten??o de paz em am- bientes ainda muito vol?teis99, por exemplo, quando ? necess?rio: render as FA que impuseram a paz, para passarem ? rectaguarda e serem gradualmente desmobi- lizadas; interpor uma for?a entre os beligerantes e se confia que o conflito acalmou; levar ajuda humanit?ria a pessoas em zonas remotas e inseguras; oferecer treino militar. As barreiras do mercado As barreiras ? entrada e ? sa?da das ESMP n?o s?o elevadas, pois as pessoas que operam neste mercado conhecem o meio e saber?o como obter pessoal qualificado e armas; al?m disso, existem economias de escala a explorar, dado que o treino do pessoal e o seu equipamento tende a estar subaproveitado100. Por fim, a reduzida regula??o101 con- tribui ainda para as baixas barreiras. Neste mercado, os activos mais importantes s?o de longe as pessoas, com as adequadas (mas dispendiosas) qualifica??es; nestas, contam-se os conhecimentos t?cnicos de ope- ra??es e t?ctica militares, e a capacidade f?sica e psicol?gica. Sendo a maioria ex-militares, a forma??o e treino iniciais est?o j? completos, s? tendo que as manter e acompanhar a evolu??o tecnol?gica. Dado o valor do servi?o prestado, ? normal que os clientes estejam dispostos a recompens?-lo generosamente; por isso, a remunera??o dos empregados das ESMP pode facilmente ser mais do dobro do que recebiam nas suas FA102 ? factor adicional de pres- s?o sobre o recrutamento das FA profissionais, j? sujeito a forte concorr?ncia com acti- vidades civis e n?o-b?licas. Dada a procura crescente, parece prov?vel que a oferta de servi?os de seguran?a e militares tem condi??es econ?micas para ser competitivo, pelo que os clientes po- der?o obter qualidade e inova??o, embora mais no caso das PMC do que nas PSC, pois ? mais dif?cil contratualizar a preven??o, de que estas se ocupam103. As PMC poder?o ser mais rent?veis, pela maior dificuldade e riscos da tarefa, pela menor concorr?ncia, 99 Nesse sentido, ver Barber (1999) p. 36; IA (2001b); ou Vaux et al (2001) pp. 11-29. Contra, ver Avant (2002). 100 Cf. Singer (2001) pp. 14-15. 101 A regula??o acarreta o reconhecimento impl?cito (inaceit?vel para muitas pessoas) e ? uma mat?ria com- plexa. 102 Cf. Singer (2001) p. 15. 103 Cf. Cummins (2002) p. 7-8. Jorge Silva Paulo 139 e pelos maiores benef?cios atribu?dos pelos clientes aos contratos que t?m ?xito. Mas muito vai depender da regula??o a que o mercado for sujeito. A procura de servi?os militares A Uni?o Europeia (UE) assumiu no Tratado da Uni?o Europeia (TUE) que podia efectuar Miss?es de Petersberg ou MOOTW; por isso, com os Estados Membros da UE, os EUA e outros estados do mundo, ? uma das entidades que pode constituir a procura neste mercado. Mas a caracteriza??o da procura implica definir tamb?m o que o cliente quer, como especificam os seus requisitos e como descrimina e selecciona a oferta. A regula??o do mercado: quadro existente A regula??o dos servi?os de defesa e das ESMP ? a quest?o crucial neste dom?- nio104: ?[?]security companies pose a danger if they are taken out of the state-controlled system?105, que ? como est?o neste momento, na maioria dos pa?ses. A adequada regula??o de licenciamento e acompanhamento do mercado de servi?os de seguran?a e defesa ? uma condi??o essencial da viabilidade do modelo proposto neste ensaio106: ?Given adequate guidelines and regulations, companies offering military services can do much to address the massive security vacuum people in developing countries endure today.? Para regular este mercado, ap?s situa??es de alegado emprego de mercen?rios sul-africanos, muito amplificadas pela comunica??o social, a Rep?blica da ?frica do Sul criou a Regulation of Foreign Military Assistance Act de 26-02-1998107, uma das 104 Cf. Zarate (1998); e Davis (2000) pp. 182-188. 105 Cf. Zarate (1998) p. 146. 106 Cf. Brooks (2002b) p. 1. 107 Na sequ?ncia da qual teve de ser dissolvida a empresa Executive Outcomes. Empresas Militares 140 primeiras leis que regula a presta??o de servi?os de defesa por entidades privadas no estrangeiro108. Os EUA e Israel j? tinham regula??o, na qual se juntam os subsectores de servi?os e de armas, para efeitos de exporta??o. No Reino Unido, est? em discuss?o p?blica desde 2002 a quest?o do emprego e regula??o das PMC por contrato com o governo109. Na Alemanha, embora esteja previsto alargar a presen?a do sector privado no sector da defesa, o seu passado recente determina que os passos sejam cautelosos, sob o controlo quase directo do estado, e (ainda) n?o se admite o recurso a PMC110. No direito internacional, a quest?o da privatiza??o da for?a resume-se praticamente ? rejei??o dos mercen?rios, considerando muitas pessoas que as PMC (mas n?o as PSC) se identificam com os mercen?rios. No entanto, h? que considerar v?rios instrumentos em vigor111. Um primeiro, ser? a Conven??o da Organiza??o de Unidade Africana para a Eli- mina??o do Mercenarismo em ?frica, de 3-7-1977, e em vigor desde 1985, que poder? considerar os elementos das ESMP como mercen?rios ? logo, criminosos ? e priv?-los do pr?prio estatuto de prisioneiro de guerra. Esta conven??o tem car?cter regional (pelo que s? tem for?a legal perante os Estados que s?o parte, os quais s? poder?o ser afri- canos), e deve ser lida ? luz da sua ?poca e da sua hist?ria112, tendo presente que eram sobretudo governos africanos que contratavam, ent?o, os mercen?rios e, recentemente, as PMC. O segundo, com alcance quase-universal, ? o Protocolo Adicional ? Conven??o de Gen?ve de 12-08-1949, Relativo ? Protec??o de V?timas de Conflitos Armados Inter- nacionais, em vigor desde 07-12-1978. Define o mercen?rio identicamente ? anterior Conven??o, mas d? mais ?nfase ao fim lucrativo, sem o criminalizar; por fim, tamb?m conclui por priv?-lo do estatuto de prisioneiro de guerra113. 108 Ver Zarate (1998) p. 155. 109 Ver HC (2002); Brooks (2002b). 110 Ver Krahmann (2003). 111 Para uma an?lise cr?tica destes instrumentos por um profissional do ramo, ver Davis (2000) pp. 34-76. Para uma an?lise do direito interno e internacional relevante e das quest?es da regula??o, ver Zarate (1998); e Nossal (2001). 112 Para aprofundar o contexto, ver M?ller (2001). 113 O n? 1 do art? 47?, determina que um mercen?rio n?o ? considerado combatente nem lhe ? aplic?vel o esta- tuto de prisioneiro de guerra; no n?2 desse artigo define-se mercen?rio por seis crit?rios cumulativos, dos quais se destacam: interesse privado no conflito; substancial remunera??o, superior ? que auferem os militares do seu lado no conflito; aus?ncia de liga??o ?s FA em conflito ou dos respectivos aliados. Jorge Silva Paulo 141 Pelo seu lado, a AG-ONU adoptou por consenso a Conven??o Internacional contra o Recrutamento, Utiliza??o, Financiamento e Treino de Mercen?rios, de 04-12-1989, mas que s? entrou em vigor em 20-10-2001114, na qual se alarga muito a defini??o de mercen?rio. As referidas conven??es t?m pouca aplica??o pr?tica e por isso n?o ?cristalizaram?115 nem estimularam a densifica??o dos conceitos. Exigem a verifica??o cumulativa de v?rias condi??es, a cuja letra n?o custa escapar, dificultando muito a demonstra??o da exist?ncia de mercen?rios. Por outro lado, estes instrumentos de direito interna- cional, centram os crit?rios nas pessoas e n?o na actividade, e deixam espa?o para a actua??o legal de ESMP, que muitas pessoas pretendem terminar com base naqueles instrumentos. Nesse sentido e visando encerrar a lacuna do direito sobre as PMC (mas n?o as PSC), s?o de referir os sucessivos relat?rios de Enrique Ballesteros, relator especial da ONU, desde 1987, para a quest?o da ?utiliza??o de mercen?rios como meio de violar os direitos do Homem e de impedir o direito dos povos ? sua autodetermina??o?. A sua vis?o do problema vem expressa nos seus relat?rios anuais. Em 1998116: ?The State may privatize many things and many services that lie within its competence, but not that which constitutes its very ?raison d??tre?. If it hands over such authority to a private company [...] it is agreeing to a limitation of state sovereignty [...]? Em 1999117: ?Problems arise when companies attempt to take over the military role and activities that by definition belong to the State and its security apparatus.? E ainda118: ?Any regulation should take into account the situation and needs of each country and respect basic principles such as free enterprise and free trade without going to the extremes in which, 114 De acordo com o seu art? 19?, que disp?e que a entrada em vigor se far? na data da ratifica??o pelo 22? Estado signat?rio, e que ainda h? nove signat?rios que n?o a ratificaram. Os EUA, o Reino Unido, a Fran?a, a Espanha e Portugal n?o s?o signat?rios, mas a Alemanha e Angola s?o, embora ainda n?o tenham ratificado a Conven??o. 115 Para usar a express?o de Zarate (1998) p. 76. 116 Cf. Ballesteros (1998). 117 Cf. Ballesteros (1999) p. 49. 118 Cf. Ballesteros (1999) p. 50. Empresas Militares 142 in the name of globalization, everything is possible and everything is permitted. The important thing is to avoid dogmatism and positions of ideological sectarism. [...] What is not acceptable is [...] in effect, a privatization of war.? Em 2000119: ?Anything to do with defending national sovereignty, territorial integrity, the right to self-determination and the protection of human rights, is the inalienable responsibility of the State. [?] The State cannot divest itself of its basic obligations in this area, nor can it permit the formation of private armies or the privatization of war.? Esta ? a vis?o weberiana do estado, e muitas pessoas n?o se surpreender?o por saber que tem origem num relator da ONU. Contudo, j? surpreende que se alegue nos seus relat?rios a ocorr?ncia de atrocidades que n?o aparecem documentadas, ou cujos relatos na comunica??o social s?o muito diversos. Em 2001, faz apelo a um direito costumeiro de condena??o do recurso a merce- n?rios120: ?[...] les r?gles du droit international coutumier et conventionnel applicables aux activit?s de mercenaires condamnent en substance le recours ? des mercenaires entendu au sens large de contrat d?achat et de vente de services militaires non r?gis par le droit international humanitaire [...].? ? de notar alguma evolu??o: tal como a grande maioria da literatura consultada, j? n?o se exclui liminarmente o emprego de empresas privadas em miss?es de defesa e seguran?a, apelando-se antes ? cria??o de adequada regula??o. Apenas os grupos cuja vis?o da sociedade ? dominada pelo estado e que cr?em, dogmaticamente, que o estado s? pode fazer o bem, recusam considerar esta op??o. Ballesteros, ao considerar que a seguran?a ? uma fun??o essencial do estado, por defini??o, e ao assimilar as PMC a mercen?rios e priv?-las de qualquer legitimidade, limita, ideologicamente, as op??es dum governo leg?timo que, por exemplo, se v? na situa??o de n?o ter FA ? altura duma dada amea?a concreta. Quando exclui o recurso 119 Cf. Ballesteros (2000) p. 23. 120 Cf. Ballesteros (2001). Jorge Silva Paulo 143 a entidades privadas numa situa??o dessas, por ser, subentende-se, um dom?nio da soberania que n?o est? dispon?vel para os governos usarem, talvez nada mais lhe reste do que recorrer a FA estrangeiras. N?o seria preciso mais do que observar os mesmos pa?ses africanos a que se refere Ballesteros, para ver que a interven??o de FA estran- geiras n?o trouxe melhorias sustent?veis ? maioria das crises de seguran?a em ?frica. Enfim, parece que o dito relator prefere que um estado seja sujeito a uma guerra civil ou seja explorado por outro, antes de se admitir a privatiza??o da viol?ncia. Mas esta sua abordagem n?o ?, de resto, partilhada por todos os que estudam h? muito esta quest?o121: ?International Alert recommends that the Commission [on Human Rights] begin to adopt a new approach to the mercenary issue in the context of the forthcoming discussion on the mercenary mandate and seek new measures to address the broader PSS problem.?122 Mais importante ainda ? a posi??o de Juan Carlos Zarate, cuja investiga??o neste dom?nio constitui uma refer?ncia123: ?[?] customary international law banning the use of mercenaries should not apply to security companies that are hired by legitimate governments or by internationally recognized movements of national liberation for either training or combat support. [?] Security companies cannot be considered ?mercenaries? because their activities have not challenged the sovereignty of states or the right of populations to self-determination. Instead, security companies have restricted their contracts solely to work for legitimate regimes or organizations. The laws banning mercenaries do not apply to these companies when they are employed in such a capacity.? Ao propor que as ESMP efectuem Miss?es de Petersberg ou MOOTW, n?o se pode ignorar que elas ter?o voca??o e capacidade para opera??es doutro tipo, podendo a sua oferta gerar a procura de governos, movimentos reconhecidos e ONG; por isso, a regula??o n?o pode ser efectuada apenas pela via da procura (de resto, uma forma de regula??o pouco transparente e sujeita a enviesamentos). 121 Nesse sentido, ver Gaultier et al (2001). 122 Ver IA (2001a). 123 Cf. Zarate (1998) p. 81. Empresas Militares 144 A regula??o do mercado: quadro a criar Como as ESMP operam, por defini??o, por contrato com uma organiza??o inter- nacional ou um estado, no territ?rio de outro estado, ter?o de se sujeitar a normas de direito interno124 ? de um de tr?s estados: aquele em que operam; aquele com o qual contratam; ou aquele onde t?m sede ?, e de direito internacional, j? que ou ser- vem fins de pol?tica externa dos estados, ou interferem com eles. O direito interna- cional existente ? pouco eficaz, mas n?o se afigura que inviabilize a proposta, aqui defendida, de recurso a ESMP em Miss?es de Petersberg ou MOOTW 125. Em todo o caso, dever? ser estabelecido que, no estado estrangeiro onde est? em curso uma daquelas miss?es da UE, para a qual foram contratadas ESMP, as ac??es destas no estado sujeito a interven??o s?o da responsabilidade ?ltima de quem as con- trata ? tal como seria o caso se, em vez de as contratarem usassem as suas FA, tornando as ESMP ?quasi-state actors?126 ? e se existir alguma disputa no contrato entre ESMP e entidade-contratante, ent?o caber? ?s jurisdi??es em que se celebram os contratos conhecer as infrac??es ou incumprimentos dos contratos e aplicar a lei. Existir? assim uma com- ponente de extraterritorialidade na aplica??o da lei, situa??o que se tem a no??o ser complexa e criar problemas novos, mas n?o insol?vel127. Como as ESMP servir?o ? UE ou aos EM para realizar Miss?es de Petersberg ou MOOTW, as orienta??es e a regula??o devem ser comuns, aprovadas e postas em vigor por directivas comunit?rias do Conselho, sendo depois adaptadas por cada EM ao seu ordenamento jur?dico. Para evitar que apenas surjam ESMP e mercen?rios com prefer?ncia pelo risco, ? essencial definir um regime que lhes ofere?a garantias em rela??o ?s miss?es a rea- lizar num estado que n?o autorize nem reconhe?a a sua miss?o128 (recorde-se a inter- ven??o no Kosovo, em 1999). Isso deve obrigar a rever as conven??es existentes neste dom?nio, sobretudo a Conven??o de 1989 da AG-ONU129. De resto, ser? a ONU a orga- 124 Nesse sentido, ver Stemmet (1999) pp. 42-46. 125 Nesse sentido, ver Oudraat (2000). 126 Cf. Zarate (1998) p. 146. 127 Nesse sentido, ver Beyani, Lilly (2001). 128 Mesmo que o estado intervencionado reconhe?a e aceite, pode, durante as miss?es, pretender responsa- bilizar uma ESMP por algum facto; estas t?m de saber quais s?o os seus direitos e deveres, para poderem evitar conflitos. 129 Concordando-se com o Livro Verde, HC (2002), e com O?Brien (2002) p. 15. Jorge Silva Paulo 145 niza??o internacional mais adequada para, no seu seio, se produzir o direito interna- cional de regula??o das ESMP; mas ? natural que seja mais f?cil vir a conseguir consensos eficazes na UE, antes da ONU130. Nesse sentido, a UE deve criar uma entidade reguladora espec?fica para este mer- cado, sujeita aos seguintes requisitos principais: ? Dispor de compet?ncias regulamentares bem delimitadas, sobre o sector. ? Depender do Conselho da UE, com delega??o da gest?o corrente no Sr. PESC. A direc??o superior deve ser independente dos EM, para tentar garantir que a UE s? tem uma voz na mat?ria; al?m disso, visando-se o emprego das ESMP em Miss?es de Petersberg e sendo estas assumidas pela UE, ? natural que se regule o sector ao seu n?vel. ? Com delega??es nos EM, integradas na administra??o indirecta131, e sob a tutela conjunta do Conselho da UE e dos minist?rios de assuntos exteriores132, para autorizar e observar os contratos realizados por ESMP com sede nesses EM com entidades externas ? UE. A regula??o deve tamb?m favorecer a transpar?ncia, como meio e n?o como fim ?ltimo. Sem d?vida que a possibilidade de escrut?nio das actividades desempenha- das pelas ESMP e dos seus contratos e membros ? essencial, para evitar enviesamentos e, na sua ocorr?ncia, para os corrigir; al?m disso, a transpar?ncia ? importante para criar credibilidade e confian?a na opini?o p?blica. Mas dada a sensibilidade da quest?o, e o segredo comercial leg?timo, ser? adequado estabelecer que alguma informa??o de- ver? estar apenas acess?vel ?s entidades de regula??o espec?ficas. A regula??o tem de colocar o respeito pelos direitos das pessoas como primeira prioridade, por raz?es t?o ?bvias, em estados de direito democr?ticos, que dispensam 130 Ser? mais dif?cil que a ONU venha a contratar servi?os com PSC do que com PMC; cf. Lilly (2002) p. 3. 131 N?o vai ser aqui aprofundada a discuss?o sobre se uma entidade reguladora deve estar na administra??o directa ou indirecta; mas importa notar que a experi?ncia parece confirmar a bondade da op??o preferida recentemente, pela qual uma entidade reguladora, na administra??o indirecta do Estado, pode ser mais eficaz a regular t?cnico-econ?mico-juridicamente um sector se for independente do governo. Nesse sentido, ver Gilardi (2001). 132 ? de evitar a depend?ncia hier?rquica dos minist?rios da defesa, para evitar que a forte presen?a de militares e ex-militares dos dois lados do sector possa criar uma ideia de secretismo nos processos e nas decis?es, de acordo com o princ?pio de que n?o basta s?-lo, ? preciso parec?-lo. Tamb?m ? de evitar a depend?ncia hier?rquica dos minist?rios da economia, para evitar que o apoio ?s exporta??es ultrapasse as quest?es formais e de seguran?a. Empresas Militares 146 justifica??o. Por isso, ? de proibir que as ESMP empreguem condenados por crimes violentos e ex-militares afastados por causas criminais133. A regula??o deve ainda estabe- lecer os crit?rios operacionais e os tipos de armas inaceit?veis nas opera??es das PMC e a que regras de empenhamento da viol?ncia est?o sujeitas. Atendendo ? r?pida evolu??o tecnol?gica, n?o faz sentido listar armas proibidas, mas indicar antes efeitos e meios proibidos134. Conclus?o Neste artigo, discutiu-se a quest?o do emprego de privados na presta??o de servi?os de seguran?a e militares, no exterior, em vez das FA nacionais, em miss?es de baixa intensidade de viol?ncia, como as Miss?es de Petersberg ou MOOTW, que a UE abra?ou. O ensaio visa mesmo apoiar essa ideia de alargamento, sob regula??o, da participa??o do sector privado na seguran?a e defesa nacionais, pelos ganhos na efici?ncia econ?mica que da? poder?o advir. Reconheceu-se a sensibilidade do tema, devido ao princ?pio weberiano de monop?lio da viol?ncia leg?tima do estado e ?s preocupa??es que suscitam a ideia de privatiza??o e lucro em rela??o a fun??es b?sicas do estado. Relataram-se os breves levantamento e an?lise de literatura jornal?stica, t?cnica e cient?fica, assim como do direito, relevantes, importando assinalar que, tal como o mercado destes servi?os ? pouco conhecido, tamb?m a literatura o ?. Indicou-se ainda que a privatiza??o no ?mbito da seguran?a interna pode servir de exemplo ? regula??o a criar no presente mercado, desde logo notando que a mudan?a ao n?vel interno n?o trouxe problemas agravados ou perdas adicionais para as sociedades, mas o contr?rio. Sugeriu-se que as FA nacionais, em especial se tiverem uma forte componente de conscritos, s?o inadequadas para miss?es que n?o envolvam claramente a defesa do estado contra amea?as externas, motivo maior da sua exist?ncia e manuten??o. Al?m disso, a sua voca??o para usar a for?a com grande intensidade (que pode ser excessiva em diversas situa??es), o pesado apoio log?stico (que demora a posicionar no teatro de opera??es e custa a sustentar) e a impopularidade das baixas entre as popula??es, 133 O que tamb?m s? ? vi?vel se o mercado for legal e regulado. 134 Seguindo aqui os princ?pios de o fim n?o justifica os meios e as inten??es contam. Jorge Silva Paulo 147 podem acabar por levar os estados a n?o fazer apoio humanit?rio quando ele seja necess?rio, por as suas FA n?o poderem acorrer na pr?tica a essas situa??es. Isto ?, o recurso a empresas privadas, sob adequada regula??o, poder? tornar as FA europeias mais eficientes, e as miss?es humanit?rias mais pr?ximas das necessidades, mais eficazes e mais eficientes; enfim, n?o custa antecipar que ? uma mudan?a com ganhos globais. Bibliografia Adams, Thomas (1999) ?The New Mercenaries and the Privatization of Conflict?; Parameters; Summer, pp. 103-116. Amaral, Diogo Freitas do (2000) Curso de Direito Administrativo ? Vol.I, Coimbra: Almedina. ______________________ (2002) Curso de Direito Administrativo ? Vol.II, Coimbra: Almedina. Art, Robert; Robert Jervis, editors (1985), International Politics. Anarchy, Force, Political Economy and Decision-Making, Harper Collins Publishers, 2nd edition. Avant, Deborah (2001) ?Selling Security: Post-Cold War Private Security Services in Historical Perspective?, 2001 Annual Meeting of the American Political Science Association, 30 August-02 September. ______________ (2002) ?Privatizing Military Training?, Foreign Policy In Focus, vol.7, n?6, pp. 1-3. Ballesteros, Enrique Bernales (1998) Report on the question of the use of mercenaries as a means of violating human rights and impeding the exercise of the right of peoples to self-determination E/CN.4/1998/31, 27 January. __________________________ (1999) ?International and Regional Instruments?, Wilton Park Conference, pp. 48-50. __________________________ (2000) Report on the question of the use of mercenaries as a means of violating human rights and impeding the exercise of the right of peoples to self-determination E/CN.4/2000/14, 21 December 1999. __________________________ (2001) Rapport sur la question de l?utilisation de mercenaires comme moyen de violer les droits de l?homme et d?emp?cher l?exercice du droit des peuples ? disposer d?euxm?mes, pr?sent? par le Rapporteur sp?cial, M. Enrique Bernales Ballesteros, conform?ment ? la r?solution 2000/3 de la Commission des droits de l?homme, E/CN.4/2001/19, 11 January. Empresas Militares 148 Barber, Martin (1999) ?Private Security Companies and Humanitarian Assistance?, Wilton Park Conference, pp. 35-36. Barbosa, Ant?nio S. Pinto (1997) Economia P?blica, Lisboa: McGraw-Hill. Beauvau, Fran?ois-Xavier (2002) Les Moyens de la Securit? Publique, Paris: Fondation Robert Schuman, F?vrier. Berndtsson, Joakim (2001) The Future of Peacekeeping or ?Corporate Dogs of War??, G?teborg: G?teborgs Universitet, May. Beyani, Chaloka; Damian Lilly (2001) Regulating Private Military Companies ? Options for the UK Government, London: International Alert, August. Bourge, Christian (2003) ?Analysis: Mercenary as Future Peacekeeper??, United Press International, 25 August 18:36. Brauer, Jurgen (1999) ?An Economic Perspective on Mercenaries, Military Companies, and the Privatization of Force?, Cambridge Review of International Affairs, vol. 13, n? 1, Autumn/Winter, pp. 130-146. Bronson, Rachel (2002) ?When Soldiers Become Cops?, Foreign Affairs, vol. 81, n? 6, November-December, pp. 122-132. Brooks, Doug (2002a) ?Private Military Service Providers: Africa?s Welcome Pariahs?, Nouveaux Mondes, n?10, Printemps, pp. 69-86. ____________ (2002b) ?Protecting People: the PMC Potential. Comments and Suggestions for the UK Green Paper on Regulating Private Military Services?, International Peace Operations Association, Alexandria: VA, 25 July. Brown, Michael; Richard Rosecrance (1999) The Costs of Conflict, Maryland: Rowman & Littlefield Publishers, Inc. Chatterjee, Pratap (1997) ?Mercenary Armies and Mineral Wealth?, Covert Action Quaterly, Fall. Cilliers, Jakkie; Douglas Fraser, eds (1999) Profit and Plunder: The Privatization of War and Security in Africa, Pretoria: Institute for Security Studies. Coase, Ronald (1960) ?The Problem of Social Cost?, The Journal of Law and Economics, Out, pp. 1-44. Jorge Silva Paulo 149 Creehan, Sean (2002) ?Soldiers of Fortune 500 International Mercenaries?, Harvard International Review, Winter. Cummins, Henry (2002) Perception and Profit: Understanding Commercial Military and Security Service Provision, University of Birmingham, Discussion Paper, 24 June. Davis, James R. (2000) Fortune?s Warriors. Private Armies and the New World Order, Vancouver: Douglas & McIntyre. Deen, Thalif (1997) ?Disarmament: UN Alarm Over Increse in Mercenaries?, World News-Inter Press Service, 16 March. Douglas, Ian (1999) ?Fighting for Diamonds ? PMC in Sierra Leone?, in Cilliers, Fraser, eds Profit and Plunder: The Privatization of War and Security in Africa, Pretoria: Institute for Security Studies, pp. 175-200. Drucker, Peter (1997) ?Introduction. Toward the New Organization?, in eds. Hesselbein, Goldsmith Beckhard, The Organization of the Future, San Francisco: Jossey Bass Publishers, pp. 1-5. Fabricius, Peter (2000) ?Private Security Firms Can End Africa?s Wars Cheaply?, Saturday Star (Johannesburg), 23 September. Fawcett, Bill, editor (1999) MERCS. True Stories of Mercenaries in Action, New York: Avon Books. Fidler, Stephen; Thomas Cat?n (2003) ?The Jobs of War?, FT.com, 10 August 19:27. Forsyth, Frederick (2000) ?Send in the Mercenaries?, Wall Street Journal, 15 May. Gilardi, Fabrizio (2001) The Mercenary Issue at the UN Commission on Human Rights, London: International Alert, January. Harker, John (1998) ?Private Power, Public Insecurity?, Ploughshares Monitor, September. Hasham, Mariyam (2003) ?Executive Outcomes: An Unconventional Army?, British Army Review, Issue 132, Summer. Herz, John (1951) Political Realism and Political Idealism, University of Chicago Press. Hitch, Charles; Roland McKean (1960) The Economics of Defense in the Nuclear Age, Harvard University Press, 11th printing (1986). Empresas Militares 150 House of Commons-HC (2002) Private Military Companies: Options for Regulation, HC 577, London: The Stationery Office, February. International Alert-IA (1999) The Privatization of Security: Framing a Conflict Prevention and Peacebuilding Policy Agenda, Wilton Park Conference, 19-21 November. ____________________ (2001a) Written Statement to UNCHR, E/CN.4/2001/NGO/174, 12 March. ____________________ (2001b) The Politicisation of Humanitarian Action and Staff Security, Boston: International Workshop, 23-24 April. International Consortium of Investigative Journalists-ICIJ (2002a) Privatizing Combat, the New World Order, The Center for Public Integrity. ____________________________________________________ (2002b) Marketing the New ?Dogs of War?, The Center for Public Integrity. Isenberg, David (1997) Soldiers of Fortune Ltd?A Profile of Today?s Private Sector Corporate Mercenary Firms, Washington: Center for Defense Information, November. ______________ (1999) ?Have Lawyer, Accountant, and Guns, Will Fight: The New, Post-Cold War Mercenaries?, International Studies Association Convention ?Getting Guns Off the Streets of the Global Village panel?, 19 February. ______________ (2000) ?Combat for Sale: The New, Post-Cold War Mercenaries?, USA Today, 01 March, pp. 12-16. Jervis, Robert (1976) Perception and Misperception in International Politics, Princeton University Press. Jervis, Robert (1978) ?Cooperation Under the Security Dilemma?, World Politics, vol.30, n?2, January, pp. 186-214. Also in Art; Jervis, editors (1985), International Politics. Anarchy, Force, Political Economy and Decision-Making, Harper Collins Publishers, 2nd edition, pp. 86-101. Keegan, John (1998) ?Private Armies Are a Far Cry From the Sixties Dogs of War?, UK News, 13 May. Kelly, Jack (2000) ?Safety at a Price: Security is a booming, sophisticated, global business?, Post-Gazette National Bureau, 13 February. _________ (2000) ?Safety at a Price: Military Expertise for Sale or Rent?, Post-Gazette National Bureau, 15 February. Jorge Silva Paulo 151 Krahmann, Elke (2003) ?Controlling Private Military Companies: The United Kingdom and Germany?, International Studies Association Conference, Portland: Or, March. Krugman, Paul; Maurice Obstfeld (1997) International Economics: Theory and Policy, New York: Addison-Wesley, 4th.ed. Leander, Anna (2002a) Global Ungovernance: Mercenaries and the Control over Violence, Copenhagen Peace and Research Institute, Working Paper n?4. _____________ (2002b) ?Conditional Legitimacy, Reinterpreted Monopolies: Globalisation and the Evolving State Monopoly on Legitimate Violence?, Annual Convention of the ISA, 24-27 March. _____________ (2003) The Commodification of Violence, Private Military Companies, and African States, Copenhagen Peace and Research Institute, Working Paper n?2. Lewis, Paul (1998) ?It?s Not Just Governments that Make War and Peace Now?, The New York Times, 28 November. Lilly, Damian (1998) From Mercenaries to Private Security Companies: Options for Future Policy Research, London: International Alert, November. ____________ (2000a) The Privatization of Security and Peacebuilding, London: International Alert, September. ____________ (2000b) ?The Privatization of Peacekeeping: Prospects and Realities?, Disarmament Forum, n?3, pp. 53-62. ____________ (2002) Regulating Private Military Companies: The Need for a Multidimensional Approach, London: International Alert, 24 June. Loureiro dos Santos, Jos? Alberto (2001) Seguran?a e Defesa na Viragem do Mil?nio, Mem Martins: Publica??es Europa Am?rica. Machiavelli, Nicol? (1996) El Pr?ncipe, Madrid: Alba, ed.original: 1531. Mandel, Robert (2000) ?The Privatization of Security?, Armed Forces and Society, vol. 28, n? 1, pp. 129-151. Marguin, Jean (2000) ?La Privatisation des forces arm?es: une ?volution in?luctable??, L?Armement, n? 69, pp. 144-150. Markusen, Ann (2001) ?The Case Against Privatizing National Security?, Governance, June. Empresas Militares 152 Marques dos Santos, Victor (2001) ?A Privatiza??o da Viol?ncia Leg?tima?, Na??o e De- fesa, ano XXVI, n? 98, Ver?o 2001, pp. 87-113. Mateus, Abel; Margarida Mateus (2002) Microeconomia: Teoria e Aplica??es, Lisboa: Verbo, 2 vols. Mbogo, Stephen (2000) ?Mercenaries? No, PMCs?, West Africa, 18 September. ______________ (2001) ?Mercenary Report Card ? A New Study of PMC Takes on Tough Questions?, Toward Freedom, February. Micklethwait, Brian (1982) In praise of Mercenaries, Libertarian Alliance, Political Notes n? 11. M?ller, Bjorn (2001) Raising Armies in a Rough Neighbourhood ? Soldiers, Guerrillas and Mercenaries in Southern Africa, Southern African Regional Institute for Policy Studies. Moreira, Adriano (1997) Teoria das Rela??es Internacionais, Coimbra: Almedina, 2? ed. Nossal, Kim Richard (2001) ?Global Governance and National Interests: Regulating Transnational Security Corporations in the Post-Cold War Era?, Melbourne Journal of International Law, Vol.2, pp. 459-476. O?Brien, Kevin (2002) PMC ? Options for Regulation, Cambridge: RAND Europe. Oudraat, Chantal de Jonge (2000) Intervention in Internal Conflicts: Legal and Political Conundrums, Washington: Carnegie Endowment for International Peace. Workin Paper n?15, August. Paulo, Jorge Silva (2002) ?A Economia da Defesa?, Anais do CMN, Vol.CXXXII, Janeiro- -Mar?o, pp. 33-52. _______________ (2003) ?Custo de Oportunidade ? Peso do Servi?o Militar Obrigat?rio?, Economia Pura, ano VI, n?58, Junho-Julho, pp. 76-78. Rapoport, Anatol (1974) Conflict in Man-Made Environment, London: Penguin Books Ltd. Samuelson, Paul; William Nordhaus (1992) Economia, Lisboa: McGraw-Hill, 14?ed. Sandline International-SI (1998a) PMC ? Independent or Regulated, London: SI, July. _______________________ (1998b) Should the Activities of PMC Be Transparent?, London: SI, September. Schelling, Thomas (1966) Arms and Influence, Yale University Press. Jorge Silva Paulo 153 _________________ (1980) The Strategy of Conflict, Cambridge, MA: Harvard University Press (orig: 1960). Schulhofer-Wohl, Jonah (2000) ?Should We Privatize The Peacekeeping??, Washington Post, 12 May. Selber, Jesse; Kebba Jobarteh (2002) ?From Enemy to Peacemaker: The Role of Private Military Companies in Sub-Saharan Africa?, Medicine & Global Survival, vol. 7, n? 2, February. Shearer, David (1998) Private Armies and Military Intervention, New York: IISS, Adelphi Paper 316. _____________ (2001) ?Privatising Protection?, The World Today, August/September. Sheppard, Simon (1998) ?Foot Soldiers of the New World Order: The Rise of the Corporate Military?, New Left Review, March/April. Sidos, Fran?ois-Xavier (2003) ?Mercenaire, Esp?ce en Voie de Disparition??, D?fense Nationale, Avril. Silverstein, Ken (1997) ?Privatizing War. How Affairs of State Are Outsourced to Corporations Beyond Public Control?, The Nation, 28 July. Singer, Peter Warren (2001) ?Corporate Warriors: The Rise and Ramifications of the Privatized Military Industry?, International Security, Vol. 26, n?3, Winter 2001/2002. ___________________ (2003) Corporate Warriors ? The Rise of the Privatized Military Industry, Cornell University Press. Smith, Eugene (2002) ?The New Condottieri and US Policy: The Privatization of Conflict and Its Implications?, Parameters, Winter, pp. 104-119. Spicer, Tim (1999) An Unorthodox Soldier, Edinburgh: Mainstream Publishing Company Ltd. Stiglitz, Joseph (1993) El Papel Econ?mico del Estado, Madrid: Instituto de Estudios Fiscales (ed. orig: Arnold Heertje, 1989). The Economist (2002) ?Mercenaries. Mad Mike comes in from the cold?, Vol.365, n?8259, 16 February, pp. 21-23. Vaux, Tony; Chris Seiple, Greg Nakano, Koenraad Van Brabant (2001) Humanitarian Action and Private Security Companies, London: International Alert, April. Empresas Militares 154 Verbo Enciclop?dia Luso-Brasileira de Cultura, v?rios volumes. Warner, John; Beth Asch (1995) ?The Economics of Military Manpower?, in eds. Hartley, Sandler, Handbook of Defense Economics, Amsterdam: Elsevier Science, pp. 347-398. Weber, Max (1995) ?conomie et Soci?t?, Paris: Pocket, 2 tomes (ed.original: Plon, 1971). Williamson, Oliver (1985) The Economic Institutions of Capitalism, New York: The Free Press. Wrigley, Christopher (1999) The Privatization of Violence ? New Mercenaries and the State, CAAT, March. Zarate, Juan Carlos (1998) ?The Emergence of a New Dog of War: Private International Security Companies, International Law, and the New World Disorder?, Stanford Journal of International Law, n?34, Winter, pp. 75-162. Jorge Silva Paulo